A leitura como um direito de todos

Por Anderson Fernandes*

Recentemente fui a uma escola para desenvolver o projeto “Vida Literária”, que distribui livros e leva palestras sobre a importância da leitura para estudantes de unidades públicas, e uma professora de Matemática questionou como essa atividade poderia ajudar os alunos na sua disciplina. Apresentei alguns argumentos, mas sem grande fundamentação. Nesta semana uma amiga me emprestou o livro “Leitura e interdisciplinaridade: tecendo redes nos projetos da escola”, de Angela Kleiman e Silvia Moraes, e foi uma experiência positiva e certamente me ajudará frente a novos questionamentos.

Reforçar a importância da leitura para muitos profissionais da Educação é apenas território do professor de Língua Portuguesa e assim os trabalhos, projetos e exercícios neste sentido dificilmente são realizados por docentes de outras disciplinas. No entanto, como bem definem Angela Kleiman e Silvia Moraes, a leitura é reconhecida como uma atividade cognitiva por excelência pelo fato de envolver todos os nossos processos mentais. Neste sentido, é essencial para aprendizagem de qualquer atividade na vida, sendo obrigatoriamente objeto de ensino de todos os professores.

Muitas vezes, o aluno não consegue resolver um exercício de Matemática, ou atividades de Química e Física, simplesmente porque não sabe interpretar ou não entende o que o professor destas disciplinas está exigindo. Ou seja, a escola e a sociedade querem estudantes críticos e participativos, porém, muitos leem sem entendimento, interpretam sem ter lido e realizam atividades sem nenhuma função na sua realidade sociocultural.

As autoras de “Leitura e interdisciplinaridade”, neste contexto, são muito felizes ao afirmar que incentivar o gosto dos alunos por jornais, revistas, livros, gibis, entre outros, é um poderoso instrumento da aprendizagem e na qualidade de instrumento deve pertencer a todas as disciplinas, pois é, por excelência, a atividade na qual se baseia grande parte do processo de ensino em contexto escolar.

E no mundo cada vez mais digital, a sociedade precisa de pessoas que consigam continuar o processo de aprendizagem de forma independente, e para isso, o cidadão precisa ler. Hoje a alfabetização, conhecer as letras, não é mais suficiente. “É função da escola formar sujeitos letrados, não apenas alfabetizados”.

A leitura como direito de todos evita o aprofundamento de divisões sociais, educacionais, culturais. E para desenvolver o gosto pela leitura, não é necessário ter acesso apenas a livros consagrados, a bibliotecas com bons acervos, ter acesso a computadores e outros aparelhos digitais. O uso de jornais, revistas, gibis, promove o letramento e auxilia na construção de uma escola cidadã atualizada com o mundo contemporâneo.

E além do trabalho com os alunos, conscientizar os pais e familiares a fim de indicar maneiras de integrar a leitura no hábito das crianças e adolescentes é algo importantíssimo. Muitos estudantes, antes mesmo de entrar na escola e serem alfabetizados, já são letrados, porque participam, em seus lares, de diversos eventos em que a escrita, a leitura do jornal, um recado anotado num papel, a leitura de um livro de contos, tem um papel central na vida dos adultos. A criança que vê seus pais buscando conteúdo informativo, educacional e cultural, mesmo antes de aprender a ler, já entende a importância da aprendizagem.

Hoje o público jovem representa uma significativa parcela do contingente populacional. Segundo a quarta edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, para 67% da população não houve uma pessoa que incentivasse a leitura em sua trajetória. Desta maneira, realizando um trabalho de incentivo à leitura na escola, o professor oferece mais que um instrumento de dignificação do aluno, ele passa a realizar um grande ato de valorização e aperfeiçoamento do ser humano.

*Anderson Fernandes é jornalista, autor dos livros Entre Quatro Poderes e Nocaute e coordenador do projeto Vida Literária.

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Categorias:Cultura, Livros

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