Ensino de Filosofia: princípios e possibilidades metodológicos

 

Ensino De Filosofia: Princípios e Possibilidades Metodológicos

 

Vitória Duarte Wingert[1][i]

Jander Fernandes Martins[ii]

 

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Vitória Duarte Wingert – Historiadora- graduada pela Universidade Feevale, especializanda em Ensino de Filosofia para Ensino Médio/UFSM, professora concursada pelo município de Campo Bom. E-mail: vitoriawingert@hotmail.com

RESUMO: Desde o ano de 2008, quando tornou-se obrigatória no currículo do Ensino Médio brasileiro, muito se tem discutido sobre qual o papel da Filosofia em sala de aula e qual metodologia seria a mais apropriada de se utilizar em sala de aula. Nesse artigo buscamos analisar as abordagens históricas e problematizadora, como sendo fundamentais e significativas no processo ensino/aprendizagem de Filosofia.

PALAVRAS CHAVES: Filosofia; Ensino; Ensino Médio; Ensino de Filosofia.

ABSTRATC: Since the year 2008, when it became mandatory in the Brazilian High School curriculum, much has been discussed about the role of Philosophy in the classroom and which methodology would be the most appropriate to use in the classroom. In this article we seek to analyze the historical and problematizing approaches, as being fundamental and significant in the teaching / learning process of Philosophy.

KEY WORDS: Philosophy; Teaching; High school; Teaching Philosophy

Inicialmente para compreendermos qual a metodologia mais apropriada para o ensino de filosofia, analisamos a raiz etimológica da palavra: “preposição metá, que significa “em meio a”, “junto a”, “entre” e o substantivo hodós, com o significado de caminho, passagem, viagem” (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.101). Partindo desse significado aluno e professores devem andar no mesmo caminho, enquanto se ensina/aprende a Filosofia.

Há, porém algumas discordâncias quanto a forma de como se ensina a filofia, que caminhos seguir, porém todos esses métodos de ensino visam atingir o mesmo objetivo, fazer com que o aluno pense filosoficamente. Essas temáticas de ensino e metodologias se potencializaram a partir de 2 de junho de 2008, quando foi sancionada a Lei 11.684, que inseriu a filosofia e a sociologia na grade curricular do Ensino Médio, vista a importância da natureza problematizadora e reflexiva dessa disciplina. Atualmente há três principais possibilidades de pensar a metodologia do ensino de filosofia: a abordagem histórica; o enfoque temático e o ensino por problemas. (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.108) Ambos os eixos possibilitam uma boa organização e didática para o ensino de Filosofia, porém algumas lacunas de aprendizagem existem em cada um deles também. Sendo assim apresentaremos a junção do ensino da abordagem histórica e problematizadora como forma de atingir o principal objetivo do ensino de filosofia: estimular o pensamento filosófico.

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Jander Fernandes Martins – Pedagogo formado na UFSM, Especialista em TICs na Educação pela FURG, Mestrando no PPGE Processos e Manifestações Culturais – FEEVALE. Professor concursado na rede municipal de Campo Bom-RS. Email: martinsjander@yahoo.com.br

Iniciaremos debatendo sobre a importância da preservação da abordagem histórica da filosofia, abordagem esta, iniciada por Hegel, que concebeu a história da filosofia como uma disciplina que proporciona o contato com os mais variados usos do pensamento para a solução dos mais diversos problemas existenciais e históricos. (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.112), porém, entre os autores que não compreendem o estudo da história como relevante para a filosofia, encontram-se Descartes e Nietzsche. Para o primeiro, estudar a história da filosofia é se dedicar somente a uma espécie de conhecimento erudito que não possui nenhum caráter científico. Segundo Descartes, o conhecimento verdadeiro é uno, e se apresenta ao pensador de maneira clara e distinta. A grande crítica à metodologia histórica é que a mesma tornou-se sinônimo de rigor metodológico e separou-se da atividade filosófica, que é o principal objetivo da filosofia no Ensino Médio. Porém, como ensinar o que é filosofia, ou como filosofar, senão a partir de uma escola filosófica? Como compreender o processo linear e histórico da mudança de pensamento e questões filosóficas de uma determinada sociedade, se não estudando os textos filosóficos? Qual a melhor maneira de compreender os filósofos se não “bebendo” diretamente da fonte que representam seus escritos?

Ora, mas não é justamente nas obras dos  filósofos, produzidas ao longo da história da  filosofia a, que os alunos poderiam encontrar in loco e face a face, a criticidade que caracteriza o pensamento  filosófico em nome da qual se atribui a essa disciplina o objetivo acima mencionado e se justifica sua presença, no currículo escolar? Aliás, de que outra maneira seria possível saber e afirmar algo sobre a natureza da  filosofia, senão pelo contato com as obras dos  filósofos? (SILVEIRA, 2011, p.140)

Sendo assim, é de extrema importância que o aluno tenha acesso e compreensão a história da filosofia, conheça os filósofos de diferentes épocas, as escolas filosófica, para que a partir desse conhecimento, consiga refletir questionar sobre sua realidade. Cabe ao professor como mediador, mostrar o “caminho” e a relação entre a história da filosofia e o os questionamentos atuais, uma vez que o “filósofo e o professor de filosofia confundem-se”. (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.105). Silveira (2011, p.140), afirma que:

Não pode dispensar o recurso à história da  filosofia a e aos textos dos filósofos se, de fato, quiser atualizar todo o seu potencial para a formação crítica dos estudantes. Para tanto, porém, é preciso conferir à história da  filosofia a um sentido muito distinto daquele acima mencionado, concebendo-a como “[…] contínua solução de problemas colocados pelo desenvolvimento histórico.” (GRAMSCI, 2001a, p. 343).

Através do ensino histórico, também não haveria necessidade de um estudo temático, pois todos os temas seriam contemplados no estudo da trajetória da filosofia.

A abordagem histórica, sob esta perspectiva, serve tanto para conferir sentido às circunstâncias quanto como ponto de vista a partir do qual a filosofia compreende a si e aos demais sistemas. O universal filosófico encontra-se justamente no instante em que as limitações do filósofo investem em uma outra história que não pertence à mesma dimensão dos fatos psicológicos ou sociais, cruzando-se e afastando-se dela. (VELASCO & BRAGA, 2014, s/p)

Cabe ao professor organizar a aula e as metodologias de maneira com que a prática filosófica esteja sempre presente, uma vez que, “no momento em que a filosofia é trazida para o cotidiano escolar, é de se esperar desta disciplina novas estratégias que evitem a repetição enfadonha de procedimentos que já estão superados há séculos” (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.116). Tendo o cuidado de destacar que não cabe, apenas, ensinar uma história da filosofia como detentora da verdade, nem ensiná-la como consciência filosófica universal. Se a própria história forma-se de sedimentação e reconstituição de sentidos, um ensino filosófico da filosofia e de sua história está constantemente em trânsito, refletindo seus fundamentos teóricos e sua práxis – constituindo-se, portanto, como filosofia.

Para ser uma aliada do ensino histórico e atingir o objetivo da construção do pensamento filosófico, aliado ao ensino da história da filosofia, podemos utilizar a abordagem problemática, uma vez que:

Uma abordagem problemática do ensino da filosofia procura organizar os conteúdos a serem trabalhados de modo a explicitar problemas que fizeram os filósofos pensar e produzir seus conceitos, qual era seu movimento de criação. E pode ser uma maneira de o professor de filosofia estimular os estudantes a fazerem, também eles, a experiência do pensar filosófico. (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.120).

Nessa forma essa abordagem, o problema está no centro metodológico, mobilizando o pensamento e forma que o faz pensar, e “é a capacidade de admiração, de espanto, de assombro, que possibilita a formulação da pergunta, ponto de partida do … filosofar. Convém, no entanto, advertir que perguntar … filosoficamente nem sempre é tarefa fácil” (SILVEIRA, 2011, p.143). Deve-se sempre se ter em mente que segundo Deleuze, só pensamos quando somos forçados a pensar, ou seja, através de problemas:

Problema é sempre fruto do encontro; há um encontro, uma experiência que coloca elementos distintos em relação e gera o problemático. E se o problema é o que força a pensar, somos levados a admitir que o princípio (origem) do pensamento é sempre uma experiência sensível. (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.122).

E também:

Com efeito, não existe  filosofar sem problematização do mundo, da vida, da realidade, dos valores, das opiniões, do saber. Se tudo é aceito como verdade irretocável, não há razão para perguntar, para investigar e, portanto, para  filosofar. A problematização, por sua vez, está diretamente associada à atitude crítica. (SILVEIRA, 2011, p. 144).

Porém a premissa deve partir de problemas reais e não problemas inventados, os alunos devem ter a vivenciar e sentir os problemas, de moda a criar conceitos para resolve-los, “desvendar os problemas regressivamente, a partir dos conceitos, de modo a possibilitar a experiência do problema e a criação do conceito”. (GUIDO, GALLO, KOHAN, 2013, p.126).

Sendo assim podemos considerar que a junção da abordagem histórica, com a problematização resultaria em uma metodologia mais significativa para a as aulas de filosofia, pois daria conta do principal objetivo do ensino de filosofia: o pensar filosoficamente, através da problematização, trazendo consigo toda a bagagem teórica dos textos filosóficos que serviriam de suporte para a criação de conceitos. Porém para que a aula tenha realmente significado é necessário que o professores esteja atuando como mediador, “promotor da união entre a competência acadêmica (domínio dos saberes) e a competência pedagógica (domínio da transmissão do saber)” (SCHIMIDT, 2006, p 56). Para Tardif, o conhecimento é constituído através das interações humanas, e isso é fundamental, uma vez que:

As interações com os alunos não representam, portanto, um aspecto secundário ou periférico do trabalho dos professores: elas constituem o núcleo e, por essa razão, determinam, a nosso ver, a própria natureza dos procedimentos e, portanto, na pedagogia. (TARDIF, 2002, p. 118).

E neste contexto o professor é diariamente desafiado, em como conseguir atingir estes objetivos propostos para alcançar um ensino pleno e de qualidade. Percebe-se então, a importância do enfoque social na aprendizagem do aluno, sendo que o conhecimento começa a ser construído individualmente e socializado através da mediação do professor:

 A aprendizagem escolar tem um vínculo direto com o meio social que circunscreve não só as condições de vida das crianças, mas também a sua relação com a escola e estudo, sua percepção e compreensão das matérias. A consolidação dos conhecimentos depende do significado que eles carregam em relação à experiência social das crianças e jovens na família, no meio social, no trabalho. (LIBÂNEO, 1994, p. 87).

Por último ressaltamos a importância do conhecimento histórico da filosofia e sua junção com a problematização, pois dessa forma teremos uma forma de ensino bastante eficaz e coerente, e que leve em conta os principais objetivos do ensino de filosofia. Também destacamos a posição do professor/filosofo como o mediador desse conhecimento e que possibilite e desperte no discente a compreensão e vontade de questionar os dogmas e paradigmas existentes a sua volta, assim como a capacidade de perguntar, de se distanciar do senso comum, de analisar criticamente a realidade, de problematizar, que é algo que não se adquire espontaneamente. em consequência, essa capacidade precisa ser estimulada, aprendida, praticada e constantemente aprimorada.

Bibliografia:

GUIDO, Humberto; GALLO, Silvio; KOHAN, Walter Osmar. Princípios e possibilidades para uma metodologia filosófica do ensino de filosofia: história, temas, problemas. Ensinar Filosofia. Org: Marcelo Carvalho & Gabriele Cornelli. Cuiabá –MT, Central de Texto, 2013.

LIBÂNEO, J. C. Didática. 1. ed. São Paulo: Cortez, 1994.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Formação do professor de História e o cotidiano em sala de aula. O saber histórico em sala de aula, org: Circe Bittencourt, São Paulo: Contexto, 2006, p.54-66.

SILVEIRA, Renê José Trentin. Ensino de Filosofia de uma perspectiva histórico-problematizadora. Educação em Revista, Marília, v.12, n.1, p.139-154, Jan.-Jun., 2011. Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/educacaoemrevista/article/viewFile/1544/1338

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

VELASCO, Patrícia Del Nero & BRAGA, Rafael Cavalcante. A filosofia e seu ensino: reflexões a partir da perspectiva Merleau-Pontyana sobre filosofia e história da filosofia. Kriterion vol.55 no.130 Belo Horizonte Dec. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2014000200011

 


[i] Historia graduada pela Universidade Feevale, especializanda em Ensino de Filosofia para Ensino Médio/UFSM, professora concursada pelo município de Campo Bom. E-mail: vitoriawingert@hotmail.com

[ii] Pedagogo formado na UFSM, Especialista em TICs na Educação pela FURG, Mestrando no PPGE Processos e Manifestações Culturais – FEEVALE. Professor concursado na rede municipal de Campo Bom-RS. Email: martinsjander@yahoo.com.br

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Categorias:Educação, filosofia

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