Pesquisadores da UFSCar traduzem capítulo de Dom Quixote para língua indígena brasileira

46386_dsc_4632_1487280398308061303João Paulo Ribeiro e professora Maria Sílvia Martins, responsáveis pela tradução.Foto: Letícia Longo

 

Texto será traduzido para língua nheengatu em obra que será lançada em Madrid, na Espanha, em dezembro

 

O aluno João Paulo Ribeiro, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação da professora Maria Sílvia Cintra Martins, do Departamento de Letras (DL) da Universidade, traduziu o capítulo 61, Parte II, da obra “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, para a língua indígena nheengatu. A tradução surgiu a partir de um convite feito à docente e demais integrantes do Grupo de Pesquisa LEETRA da UFSCar pelo professor José Manuel Lucia Megias, filólogo espanhol e professor de Filologia Românica na Universidade Complutense de Madrid.
O livro, intitulado “Quijote Universal”, será lançado na Biblioteca Nacional da Espanha, em Madri, no mês de dezembro, e terá cerca de mil páginas. Maria Sílvia conta que a tradução foi feita do espanhol para o nheengatu. Assim, o título original do capítulo é “De lo que le sucedió a don Quijote en la entrada de Barcelona, con otras cosas que tienen más de lo verdadero que de lo discreto“, traduzido por “Maã usasá resewara don Quijote irumu Barcelona rukena upé amu maã irumu uriku waa supisawa piri ti akangaíma suí“. “A possibilidade de realizar esta tradução inclui fortemente o professor Eduardo Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – não apenas porque ensina nheengatu, mas pela demonstração de que se deve acreditar que estamos fazendo um grande ato. Além disso, a tradução só foi possível porque a professora Maria Sílvia visualizou esta possibilidade. No entanto, isto tudo já está no próprio Don Quijote. É o que aprendi com eles de como aplicar a Linguística”, afirma João Paulo.
De acordo com a docente Maria Sílvia, “João Paulo é um profundo conhecedor de nheengatu. Ao supervisionar seu trabalho, relacionei com ele os textos em espanhol e em nheengatu de modo que chegássemos às escolhas mais interessantes para a tradução. Essa é uma tradução que envolve algum grau de criação literária, não podendo ser totalmente literal”, esclarece. A professora reforça que a tradução desta tradicional obra para diversas línguas é de fundamental importância para a literatura, proporcionando um novo leque de possibilidade de leitura para a obra de Cervantes. “Isso significa, por exemplo, que a existência de um Don Quijote falando uma língua indígena brasileira é perfeitamente previsível na obra magistral do romancista espanhol, ou seja, coaduna-se com a maneira de ser e de existir de seu personagem. É como se o nheengatu já estivesse sempre ali, esperando para ser explicitado”, relata.
Além disso, para ela, este trabalho significa mais uma uma forma de fortalecimento dos indígenas em geral e do indígena brasileiro em particular. “Sendo uma língua geral, quer efetivamente falada, quer conhecida em maior ou menor parte pela maioria dos indígenas brasileiros, acreditamos na potencialidade de a língua nheengatu representar, à sua maneira, tal qual uma embaixatriz ou diplomata (como língua geral, o nheengatu é eminentemente uma língua da diplomacia), as cerca de 180 línguas indígenas brasileiras”, afirma.
46386_dsc_4637_6831271383522584916Capítulo de Dom Quixote é traduzido para língua indígena brasileira. Foto: Letícia Longo

A tradução também mostra o reconhecimento da pesquisa e demais atividades que o Grupo LEETRA vem desenvolvendo há cerca de 10 anos. “Isso também mostra a valorização das diversas ações que envolveram a formação de professores para o trabalho com a temática indígena em sala de aula, em cumprimento da Lei 11.645/08, e a organização pelo LEETRA de eventos em torno da cultura e da literatura indígenas, além da participação em redes nacionais e internacionais voltadas a essa temática”, relata. Maria Sílvia conta que o grupo desenvolveu ainda um curso a distância com a pesquisadora de literatura indígena Renate Eigenbrod, assim como a tradução literária de narrativas em língua wanano para a língua portuguesa em conjunto com a antropóloga americana Janet Chernela. “Também temos trabalhos em andamento com a UFOPA, para quem subsidiamos a produção de material didático bilíngue (nheengatu/português), e acordos com a pesquisadora Lillian de Paula (UFES), hoje residente em Nova Iorque”, enumera.
Mais informações sobre o LEETRA podem ser obtidas em http://www.leetra.ufscar.br.
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Categorias:Notícias, Povos Indígenas

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