Quinze minutos de fama

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Gilda E. Kluppel

“Em toda parte onde reina o espetáculo, as únicas forças organizadas são as que querem o espetáculo”. Guy Debord

Aonde existe um holofote, lá está ela. O anonimato soa como uma sentença de morte. Impossível encontrar a felicidade sem a conquista da fama. Demonstra insatisfação pela vida cotidiana, distante do glamour dos flashes. Logo, anseia aparecer, atrair o olhar do público. Inscreveu-se em todos os realities shows disponíveis, mas não conseguiu realizar o seu intento. Aparecer, para ela, significa mostrar a sua imagem, resultante de elaborada produção, permanentemente cuidada para uma ocasião oportuna.

Ela sempre se portou desse modo, porém, desde que conseguiu protagonizar um comercial de produtos para emagrecer, graças à indicação de um amigo da academia, deslumbrou-se ao ser reconhecida por algumas pessoas na rua. Contudo, o tempo passou e o semblante, não mais reconhecido por ninguém, tornou-se alvo de intensa preocupação. Assim, precisava transformar a sua imagem, criar novos acontecimentos, encontrar espaços para permanecer em razoável evidência.

A moça não desgruda das redes sociais, compartilhando inúmeras fotos. Quando anda pela rua, mal percebe as pessoas, sequer olha por onde pisa, sempre mirando para o smartphone, companheiro inseparável de todas as horas. Imagina a alegria quando notada e também objeto de inúmeros comentários, até mesmo os maldosos. Não se importa, o interesse é tornar-se o assunto do momento. Nesse caso, poderia ter as suas roupas cobiçadas e servir de modelo para muitas mulheres. Afinal, acredita que as pessoas se identificam com as celebridades e passam a segui-las.

Ao notar que o culto à celebridade é grande, nutre a certeza de que basta apenas a aparência, dispensa desenvolver um talento ou uma habilidade. Logo, poderia surgir uma nova oportunidade a qualquer momento. Para tanto, monta estratégias, forjando imagens e situações, tais como namorar um jogador de futebol ou um ator famoso, discutir com alguém que possua alguma notoriedade também pode acarretar uma nota, em uma revista ou um blog de fofocas. Inclusive em ocasiões que beiram ao ridículo, tais como tirar uma selfie ao lado de uma mulher, que encontrou no salão de beleza, parecidíssima com uma atriz conhecida e postar na rede como se fosse a própria. Assim, o seu ego volta a ser alimentado.

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná

Os pais ainda se culpam por deixá-la, desde a infância, à mercê de uma cultura midiática perversa, na qual se incute a fama e o dinheiro como sinônimos de felicidade, desvinculada de trabalhos, estudos ou notórias ações. Lamentam ao recordar da tradicional pergunta feita para as crianças: “o que você vai ser quando crescer”? Eles ouviam sempre a mesma resposta: “Vou brilhar”! No fundo, ela se entristecia em não ser a filha de pais famosos. Dessa maneira, para ela, a ascensão ao mundo das celebridades se consolidaria com mais facilidade.

Algumas vezes, voltava à tona, a última delas por meio de um vídeo íntimo que “vazou” na internet. Submergida das profundezas do oceano, respira o ar da realização e depois submerge e sufoca, não se sabe por quanto tempo, no anonimato, causador de enorme frustração. Entretanto, contenta-se em ser uma subcelebridade na sociedade do espetáculo. A sua existência resume-se em almejar a fama. Fissurada, constata apenas as vantagens dessa opção, ao imaginar que o seu almoço, a ida ao shopping ou à praia, qualquer situação corriqueira serve de motivo para atrair olhares. Não apenas a imagem, mas agora também a intimidade causa interesse e negociando a própria identidade, na busca por seu ideal, chega a simular a realidade, ao expor todos os momentos de sua vida.

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