Alfabetização na Educação Infantil: considerações sobre a Psicogênese da Língua Escrita e os níveis de desenvolvimento da criança

 

 anatebe

Alfabetização na Educação Infantil: considerações sobre a Psicogênese da Língua Escrita e os níveis de desenvolvimento da criança

Marilaine Furtado¹

Fernanda Duarte Araújo Silva²

Resumo

O presente artigo tem como objetivo apresentar estudos relacionados ao processo de alfabetização na Educação Infantil a partir do estudo desenvolvido por Emília Ferreiro e Ana Teberosky, intitulado: Psicogênese da Língua Escrita.  Concluímos que foi a partir dessa pesquisa que o sistema representativo da leitura e da escrita passou a ser interpretado de maneira diferenciada e a criança passou a ser considerada construtora do seu próprio conhecimento, sendo fundamental o papel do professor, pois lhe compete criar condições em sala de aula, tornando-a um ambiente agradável para que o processo da leitura e da escrita ocorra o mais natural possível.

Palavras-chaves: Alfabetização. Educação Infantil. Psicogênese.

A partir de 1980 surgem no cenário educacional a publicação de pesquisas que abordavam o processo de aquisição da língua escrita pelas crianças. Um dos principais estudos publicados nesse período foi o intitulado: intitulada: Psicogênese da Língua Escrita, de autoria de Emília Ferreiro e Ana Teberosky. Ambas autoras apoiaram-se nos estudos desenvolvidos por Piaget.

Segundo Piaget[1] (1978), a psicogênese está relacionada à formação dos conhecimentos e os pesquisadores consideram importante “um estudo da evolução” dos conhecimentos desde suas raízes. Foram essas observações que levaram Piaget a formular a teoria dos estágios do desenvolvimento cognitivo, que se realizam por meio da construção progressiva das estruturas mentais. Piaget (1978) conclui que essas estruturas caminham para o equilíbrio cada vez mais estável o que faz com que o sujeito se adapte ao seu meio.

Foi a partir da leitura do livro Psicologia da Inteligência que Emilia Ferreiro despertou seu interesse pelas ideias do pesquisador suíço Piaget e começou a estudar a Psicologia da Inteligência. Segundo Mello (2007), nos anos de 1960, Ferreiro foi para Genebra, já com algum conhecimento da teoria de Piaget, tentou se aproximar do mestre, mas “não queria estudar apenas as classificações, seriações e conservações”, ela queria verificar de que forma a teoria de Piaget se aplicava à construção do conhecimento da língua escrita.

Assim Ferreiro & Teberosky (1985) também procuraram, no trabalho que desenvolveram identificar os tipos de erros construtivos que as crianças cometiam na gênese das conceitualizações acerca da escrita e, ao definirem tais objetivos, destacaram que não pretendiam propor nenhuma nova metodologia nem uma nova classificação dos transtornos da aprendizagem, mas “apresentar a interpretação do processo desde o ponto do sujeito que aprende, para, a partir daí, contribuir para a solução dos problemas da aprendizagem da leitura e da escrita, propondo uma nova maneira de pensar a alfabetização” (p.52).

Para Ferreiro & Teberosky (1985) o conhecimento não estava nem no sujeito (racionalismo) nem no objeto (empirismo). Pelo contrário, dava-se pela interação ou pelas trocas do sujeito com objeto (interacionismo), em que ambos se transformavam:

Assim sendo, a aquisição de conhecimentos depende tanto das estruturas cognitivas do sujeito como de sua relação com o ambiente. Entretanto, vale ressaltar que o construtivismo é uma construção científica que procura extrair leis explicativas dos fenômenos, sem se preocupar com a aplicação prática. Por isso, não é certo afirmar que o construtivismo seja um método de ensino, já que essa teoria psicológica da aprendizagem volta-se para compreensão de como o sujeito aprende e não para a questão de como o/a professor/a deve ensinar (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p. 64).

Ao introduzirem uma linha de investigação no campo da escrita, Ferreiro &Teberosky (1985) trazem a possibilidade de melhor entender a questão no que se refere à escrita até então ausente nas pesquisas feitas pela Linguística, pela Psicologia e pela Pedagogia, buscando na teoria de Piaget a explicação sobre o desenvolvimento da criança no ato de ler e escrever, do ponto de vista cognitivo. Para as referidas autoras, a construção do conhecimento da leitura e da escrita tem uma lógica individual, embora aberta à interação social, na escola ou fora dela, pois, no decorrer desse processo, a criança tem seus avanços e recuos até se apossar do código linguístico e assim dominá-lo.

Assim, com base nas teorias de Piaget (1978), Ferreiro & Teberosky (1985) elaboraram cinco níveis que apresentamos a seguir e que devem ser considerados durante o processo de aquisição da leitura e da escrita:

NÍVEL 1 – Nesse nível, escrever significa reproduzir os traços típicos da escrita que a criança identifica como a forma básica de escrita. Se essa forma básica é a escrita de imprensa, teremos grafismos separados entre si, compostos de linhas curvas e retas ou combinações entre ambas. Se a forma básica é a cursiva, teremos grafismos ligados entre si com uma linha ondulada como forma de base na qual se inserem em curvas fechadas ou semifechada (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985).

Segundo Séber (2002), a criança, ao desenhar, representa materialmente por meio de traçados algo que tem na sua imaginação. Explica que, ao desenhar, ela tende a aproximar, gradativamente, as formas do desenho às figuras que tem em mente e, na escrita, acontece o contrário, pois os traçados vão tomando forma de letras e se distanciam cada vez mais da aparência daquilo que elas pretendem representar por meio das palavras, já que a linguagem escrita se configura num código de sistema arbitrário.

No que diz respeito à interpretação da escrita, Ferreiro & Teberosky (1985) esclarecem que, nesse primeiro nível, a intenção subjetiva do escritor conta mais que as diferenças objetivas no resultado e que todas as escritas se assemelham entre si, o que não impede que a criança as considere como diferentes, visto que a intenção que presidiu a sua realização era diferente.

NÍVEL 2 – A hipótese central desse nível de acordo com Ferreiro & Teberosky (1985) é que para poder ler coisas diferentes deve haver uma diferença objetiva nas escritas. O progresso gráfico mais evidente é que a forma dos grafismos é mais definida, mais próxima à das letras. Porém, o fato conceitual mais interessante é que se segue trabalhando com a hipótese de que faz falta certa quantidade mínima de grafismos para escrever algo e há a hipótese da variedade nos grafismos (Ferreiro & Teberosky, 1985).

Para Séber (2002), compreender o desenho como forma de aprendizagem é fundamental para quem atua como professor alfabetizador o que implica conhecer as etapas pelas quais a criança passa na evolução desses grafismos, bem como a sua relação com as hipóteses que formula em relação à linguagem escrita.

NÍVEL 3 – Esse nível está caracterizado pela tentativa de dar um valor sonoro a cada uma das letras que compõem uma escrita. Nessa tentativa, a criança passa por um período da maior importância evolutiva, cada letra vale por uma sílaba e ocorre o surgimento do que chamamos de hipótese silábica em que a criança dá um salto qualitativo e pela primeira vez trabalha claramente com a hipótese de que a escrita representa partes sonoras da fala (FERREIRO;TEBEROSKY, 1985).

Ainda, segundo Ferreiro & Teberosky (1985), a hipótese silábica pode aparecer com grafias ainda distantes das formas das letras, com grafias bem diferenciadas e, nesse caso, as letras podem ou não ser utilizadas com um valor sonoro.

NÍVEL 4 – Na passagem da hipótese silábica para a alfabética, a criança abandona a hipótese silábica e descobre a necessidade de fazer uma análise que vá “além” da sílaba pelo conflito entre hipótese silábica e a exigência de quantidade mínima de grafia (ambas as exigências puramente internas, no sentido de serem hipóteses originais da criança) e o conflito entre as formas gráficas que o meio lhe propõe e a leitura dessas formas em termos da hipótese silábica (conflito entre uma exigência interna e uma realidade exterior ao próprio sujeito), (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985).

Machado et al (2000) explicam que “são nas vivências da escrita que as crianças descobrem as propriedades do sistema alfabético, o que lhes permite ler o que os outros escreveram” (p.52).

NÍVEL 5 – A escrita alfabética constitui o final dessa evolução. Ao chegar a esse nível, a criança já compreendeu cada um dos caracteres da escrita correspondente a valores sonoros menores que a sílaba e realiza sistematicamente uma análise sonora dos fonemas das palavras que vai escrever. Isso não quer dizer que todas as dificuldades tenham sido superadas e, a partir desse momento, a criança se defrontará com as dificuldades próprias da ortografia, mas não terá problemas de escrita.

Em Psicogênese da Língua Escrita, encontramos também um resumo dos níveis citados acima que  ressaltam que toda criança passa por fases até que esteja alfabetizada e que essas fases podem ser intituladas como:

pré-silábica: a criança não consegue relacionar as letras com os sons da língua falada;

silábica: a criança interpreta a letra a sua maneira, atribuindo valor de sílaba a cada uma;

silábico-alfabética: a criança mistura a lógica da fase anterior com a identificação de algumas sílabas;
alfabética: a criança domina o valor das letras e sílabas.

Pilar (2005) destaca que o professor deve ser capaz de interpretar as capacidades adquiridas pela criança, utilizando critérios que possibilitem sinalizar progressivos avanços no processo de alfabetização. Levando em conta as capacidades que já foram desenvolvidas, o profissional deverá introduzir retomar, trabalhar ou consolidar as aprendizagens por meio de atividades planejadas de acordo com as necessidades individuais ou da turma.   Ferreiro & Teberosky (1985) afirmam que se pode perceber que, conforme a etapa do desenvolvimento da criança, ela tem a capacidade de construir ideias que vão se modificando gradativamente à medida que seus conhecimentos vão se tornando mais claros.   Nesse sentido, Pilar (2005) faz os seguintes esclarecimentos: os diagnósticos e avaliações servirão de base para o planejamento das estratégias para a superação das dificuldades encontradas e a sensibilidade do professor será um fator determinante na adequação da proposta pedagógica à real situação dos alunos. Dessa forma, é preciso que se leve em conta as diferenças individuais ao propor atividades ou avaliar as respostas das crianças.   Em  linhas gerais podemos afirmar a partir dos estudos apresentados nesse artigo, que foi a partir de estudos da Psicogênese da Língua Escrita que o sistema representativo da leitura e da escrita passou a ser interpretado de maneira diferenciada e a criança passou a ser considerada construtora do seu próprio conhecimento, sendo fundamental o papel do professor, pois lhe compete criar condições em sala de aula, tornando-a um ambiente agradável para que o processo da leitura e da escrita ocorra o mais natural possível.

Sobre o processo de alfabetização na Educação Infantil, Ferreiro & Teberosky ressaltam que a criança constrói hipóteses a respeito do que seja ler e escrever, portanto ela não espera chegar à idade certa ou que alguém se disponibilize a ensiná-la, mas vai aos poucos, naturalmente, se alfabetizando. Isso não significa dispensar o professor, mas sim alertá-lo para que, antes de iniciar o seu trabalho, conheça a sua turma e o nível em que cada um se encontra para assim desenvolver atividades que ajudem seus alunos a se desenvolverem.

Barbosa (1996) destaca que a alfabetização requer profundas reflexões principalmente em nosso país, onde o fracasso escolar está inserido não só na educação, mas também na política social. A partir daí, constatamos que, para acontecer a alfabetização, é preciso que todos os educadores sejam capazes de trabalhar de forma comprometida e dinâmica, usando as técnicas e os métodos adequados a fim de inserir sempre o aluno no “mundo” da leitura e da escrita.

Portanto, a alfabetização é um processo de construção e, para ensinar a criança a ler e escrever, são necessários alguns procedimentos como destaca Kramer (1995): possibilitar à criança a criação de textos, incentivá-la a escrever de forma convencional, permitindo-lhe levantar hipóteses, observar o que escreve, por meio de vários tipos de material escrito, com intuito de possibilitar que a criança utilize materiais que sejam significativos à sua formação.   Nessa linha, Ferreiro (2001) destaca:

Para que a criança faça relação com a escrita e que tenha contato fora da escola e dentro, é necessário apresentar todo tipo de material escrito que for possível na sala de aula e, em cada classe de alfabetização, deve haver um canto ou área de leitura onde se encontram não só livros bem editados e bem ilustrados, mas também qualquer material que contenha escrita (FERREIRO, 2001, p.33).

Percebemos a partir das discussões realizadas que a alfabetização pode ser compreendida como um processo de construção de conhecimentos.  Nesse sentido, é necessário reconhecer e respeitar os processos e fases de desenvolvimento da criança, desde a Educação Infantil. Esse é o nosso desafio.

Referências

BARBOSA, José Juvêncio. Alfabetização e Leitura. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1996.

FERREIRO, Emília; TEBEROSKY Ana. Psicogênese da língua escrita. Trad. De Diana Myriam Lichtenstein, Liana Di Marco e Mário Corso. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 2001.

MACHADO, Anna Maria Neto, et. al. Como as crianças aprendem e como o professor pode ensiná-las a escrever e ler. Porto Alegre: Artmed, 2000.

PIAGET, J. Problemas de Psicologia Genética. In: Os pensadores. Trad. Nathanael C.

Caixeiro. São Paulo: Abril Cultural, 1978ª. p. 1 – 64.

PILLAR, Analice Dutra. Ver, criar, compreender. Viver Mente & Cérebro, ed. Especial Memória da pedagogia, n.5, p.33-41, São Paulo, Duetto, 2005.

SEBER, Maria da Glória. Psicologia do Pré-escolar: uma visão construtivista. São Paulo: Moderna, 2002.KRAMER, Sonia. Retratos de um desafio: crianças e adultos na educação infantil. São Paulo: Ática, 2009.

¹ Formada em Pedagogia pela Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

² Doutora em Educação. Professora do Curso de Pedagogia pela Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).


[1] Jean Piaget nasceu em 1896, na Suíça, faleceu em 1980, aos 84 anos de idade. A elaboração da teoria explicativa da gênese do conhecimento no homem levou Piaget a formular propostas teóricas e metodológicas inovadoras quanto à natureza dos processos de desenvolvimento da criança.

Anúncios


Categorias:Todas as categorias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: