Consciência ambiental favorece monitoramento de coleta

Por Júlio Bernardes – jubern@usp.br

Estudo foi realizado na comunidade ribeirinha do Roque, no Amazonas

Estudo foi realizado na comunidade ribeirinha do Roque, no Amazonas

Os fatores que levam a participação das populações locais no monitoramento dos efeitos ecológicos, sociais e econômicos da coleta e comercialização de produtos florestais não madeireiros (PFNM) são analisados em pesquisa do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP. O estudo da pesquisadora Alice Dantas Brites foi realizado na comunidade ribeirinha do Roque (Amazonas), onde é feita a extração de óleos vegetais, vendidos para uma indústria de cosméticos. O trabalho aponta que fatores econômicos, comportamentais e psicológicos influem no envolvimento dos moradores, tais como a participação na atividade extrativa, o comportamento cooperativo e uma atitude positiva em relação à conservação da floresta.

A comunidade do Roque está localizada na Reserva Extrativista do Médio Juruá, no Estado do Amazonas. Ela é a mais populosa da Reserva, com cerca de 495 habitantes, distribuídos entre 84 casas e 51 unidades domésticas. O Roque foi fundado em 1992 e encontra-se a 107 quilômetros (km) distante por via fluvial da cidade mais próxima, Caruari (localizada a 542 km de Manaus). “A comunidade possui uma parceria com uma empresa de cosméticos nacional para a comercialização de óleos vegetais, em especial de andiroba e murumuru”, conta Alice. “Os óleos vegetais são extraídos por um processo semi-industrial na usina existente na própria comunidade e depois refinados por uma indústria química”.

Inicialmente foi realizado um levantamento por meio de entrevistas com 166 adultos com mais de 18 anos em 51 unidades domésticas do Roque para estimar a intenção de participar e os determinantes da participação. “Em seguida, foi feito um monitoramento experimental dos efeitos da coleta e do comércio de andiroba para quantificar a participação real dos moradores no monitoramento”, relata a pesquisadora. “Nesta segunda etapa foram realizadas reuniões com os moradores para planejar e discutir o monitoramento, a coleta de dados socioeconômicos por meio de entrevistas com outros moradores e a coleta de dados ecológicos sobre a população de andiroba”.

A pesquisadora concluiu que fatores econômicos, comportamentais e psicológicos atuam em conjunto para determinar a participação dos moradores no monitoramento. “Dentre os fatores econômicos, observou-se que as pessoas que pertencem a famílias cuja renda vem principalmente dos produtos da floresta, como frutos e sementes, tendem a participar mais”, ressalta. “No entanto, o comportamento cooperativo, atitudes positivas em relação à conservação da floresta e o conhecimento que a pessoa tem sobre os possíveis efeitos negativos da atividade, também são fortes determinantes da participação”.

Estratégias
Para Alice, estabelecer estratégias para divulgar informações sobre os possíveis impactos ecológicos e socioeconômicos da exploração dos recursos, assim como o papel do monitoramento no entendimento do processo pode ser um mecanismo eficaz para aumentar a probabilidade de participação.“Além disso, os efeitos dessas informações sobre a participação podem ser ampliados se as mesmas forem transmitidas por pessoas importantes para os moradores, como por exemplo, os líderes comunitários”, sugere. “Outra possibilidade para promover a cooperação e a participação entre os moradores é criar compromissos públicos entre os membros”.

Para ampliar o engajamento dos moradores também é importante pensar em estratégias que reduzam o custo de oportunidade da participação, defende a pesquisadora. “Dado que a participação voluntária pode acarretar ônus aos envolvidos, os participantes poderiam ser pagos, em dinheiro ou bens de consumo, em um quantia equivalente ao custo de oportunidade de sua participação, com recursos obtidos na coleta e comércio dos recursos naturais”, observa.

Fornecer aos moradores as ferramentas e o conhecimento necessário à realização do monitoramento também seria essencial, aponta Alice. “Por exemplo, para chegar à área de ocorrência das andirobeiras é preciso percorrer um percurso de barco, mas nem todos os moradores possuem barco e o combustível necessário para ir até lá”, diz. “Portanto, o fornecimento de um barco comunitário e de combustível seria indispensável para o monitoramento. Isso poderia ser feito com recursos financeiros colocados à parte do comércio com a empresa”.

De acordo com a pesquisadora, entender os determinantes da participação voluntária de atores locais nos monitoramento participativo dos efeitos da coleta e comercialização de PFNM é importante para aumentar a probabilidade de sucesso da iniciativa a curto e longo prazo. “Por sua vez, esse êxito pode levar ao manejo mais eficiente em termos de conservação dos recursos naturais, assim como dos resultados relativos ao desenvolvimento local”, enfatiza. A pesquisa, orientada pela professora Carla Morsello, foi realizada no Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental do IEE.

Fotos: cedidas pela pesquisadora

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Categorias:ambientalista e ruralista, ambientalistas, Meio Ambiente

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