Pesquisa da UFSCar que antalisa os dilemas que atormentam jovens futebolistas brasileiros é premiada na Espanha



Trabalho, que foi desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicos e Sociais do Futebol (ProFut), foi condecorado como a melhor investigação na categoria “Comunicação Oral” no II Congresso Mundial de Treinadores de Futebol


Uma pesquisa que analisa os dilemas que afligem os jovens brasileiros jogadores de futebol de categorias de base, desenvolvida no Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicos e Sociais do Futebol (ProFut) do Departamento de Educação Física e Motricidade Humana (DEFMH) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), foi premiada como a melhor investigação na categoria “Comunicação Oral” no II Congresso Mundial de Treinadores de Futebol, realizado em Sevilha, na Espanha. O evento, o maior da área na Europa, é realizado pela Real Federación Andaluza de Fútbol, que nessa edição em comemoração ao centenário da entidade, contou com mais de 3.300 participantes, incluindo estudantes, pesquisadores e profissionais renomados de diferentes áreas de atuação relacionadas ao futebol, como o treinador do Valencia Nuno Espírito Santo e o preparador físico do Bayern de Munique Lorenzo Buenaventura. O estudante do curso de Educação Física da UFSCar Bruno Martins Ferreira, que participa do Programa Ciência sem Fronteiras na Espanha, representou o ProFut no evento.

A pesquisa “Estudar ou jogar futebol? Compreendendo os dilemas que atormentam os jovens futebolistas brasileiros” aborda os adolescentes que, mobilizados por um imaginário coletivo que instituiu que os jogadores de futebol detêm uma situação econômica que os assegura conforto e tranquilidade durante suas carreiras e posterior a elas, vislumbram ascender socialmente por meio do ingresso na atividade profissional futebolística. Porém, segundo a pesquisa, a ideia de que os jogadores acumulam fortunas às custas apenas de um suposto talento ou dom mascara uma série de mazelas que permeiam a carreira desses profissionais, já que a profissão exige altos investimentos em termos de tempo para a formação, algo que para alguns teóricos corresponderia a um curso superior, ou aproximadamente 5000 horas. Além do que, um alto investimento não garante qualquer expectativa de retorno.

Dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de 2009 mostram a realidade desse mercado no Brasil: 84% dos jogadores de todas as divisões do futebol profissional do Brasil recebiam salários de até R$ 1 mil, 13% recebiam entre R$ 1 mil e R$ 9 mil e apenas 3% recebiam acima de R$ 9 mil por mês. Os dados sobre a precarização das carreiras dos futebolistas do ponto de vista da estabilidade do emprego também não são positivos, na medida em que aproximadamente dois terços dos contratos de jogadores registrados na CBF têm duração de até quatro meses, fazendo da profissão um serviço temporário. Mesmo diante de todos os riscos apontados, a carreira futebolística exerce um fascínio nos jovens, fazendo-os minimizar – ou mesmo ignorar – tais adversidades, investindo todas as energias nesse projeto, o que muitas vezes culmina em lacunas na formação escolar e em uma superestimada demanda de carga horária consumida pelas rotinas das categorias de base dos clubes de futebol.

A pesquisa analisou as narrativas de 14 futebolistas de até 17 anos, integrantes das categorias de base de um clube do interior de São Paulo. O questionário que orientou as entrevistas foi composto por 32 perguntas divididas em três blocos temáticos, sendo eles relação com a escola, relação com o clube e projetos de vida. Conclui-se que, apesar das dificuldades para conseguirem se tornar jogadores de futebol profissional, como as rotinas de treinamento, base material limitada, muita concorrência e a grande importância de se ter um empresário, relatadas pelos entrevistados, fica nítido que a maioria ainda sustenta esse sonho, que se confunde com seus projetos de vida, já que não há perspectiva de futuro condizente a um planejamento em longo prazo que seja constituído por metas a serem alcançadas.

Ainda segundo a pesquisa, é evidente que a escola é vista pelos meninos como uma espécie de projeto alternativo, para o caso de não virem a se tornar profissionais do futebol. Quando questionados, a maioria dos entrevistados preferiu perder um ano escolar a um campeonato, indicando que a escola não se configura como uma perspectiva de projetos de vida bem sucedidos no contexto de boa parte desses jovens. A pesquisa aponta que a ausência de referências de profissionais bem sucedidos alicerçados pela trajetória escolar contribui para que esses jovens apoiem-se na incerta expectativa de uma ascensão social pelo futebol, que permitiria o usufruto de todas os lucros desfrutados pelos jogadores famosos que são seus ídolos.

No entanto, esse sonho tem prazo de validade para a maioria deles. As respostas ao questionamento sobre até quando eles querem investir na profissionalização do futebol apontam que grande parte dos 14 meninos afirma que até em torno dos 18 anos tentariam crescer profissionalmente e que, se isso não acontecesse, tentariam outro projeto de vida. A proximidade da idade tida como marco da maioridade civil no país, denotada pelos 18 anos como indicador do período de interrupção do investimento na carreira futebolística, é recorrente na fala de muitos dos garotos entrevistados e aponta para uma necessidade desses meninos, muitas vezes provenientes de famílias de baixa renda, em auxiliar na complementação da renda familiar.

Outros trabalhos sobre Pedagogia do Futebol e Futebol e Sociedade são desenvolvidos pelo ProFut da UFSCar, que é coordenado pelo professor Osmar Moreira de Souza Júnior, docente do DEFMH, e reúne estudantes e profissionais de Educação Física e áreas correlatas. Mais informações podem ser conferidas no site do grupo, em http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/4298588451307585.
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Categorias:Notícias

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