I Semana dos Estudantes Indígenas da UFSCar debate desafios que vêm depois da conclusão da graduação

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Da esquerda para direita, Gian Massi, Lennon Ferreira Corezomaé, Mayara Suni e Erinilso de Souza Manchinery, que participaram da mesa sobre os desafios que vêm após a conclusão dos estudos de graduação. (Crédito: Beatriz Maia / Assessoria de Comunicação da Reitoria da UFSCar)

Evento, com o tema ‘Reconstruindo a História do Brasil’, abordou o acesso à pós-graduação e a realidade dos profissionais indígenas, dentre outros assuntos

 

Entre os dias 14 e 16 de abril, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sediou a I Semana dos Estudantes Indígenas, evento organizado pelo Centro de Culturas Indígenas (CCI) da Universidade, com o apoio da Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad) da UFSCar. A programação do evento, sob o tema “Reconstruindo a História do Brasil”, contou com mesas temáticas que propuseram reflexões sobre diversos desafios dos estudantes indígenas no Ensino Superior, abordando questões relacionadas a ingresso, ao período após a conclusão do curso, a mobilização e à formação na área da Saúde. Além disso, foram realizadas apresentações culturais e um torneio esportivo, para celebrar as culturas indígenas presentes na Universidade e promover a integração entre os estudantes.
Paulo Henrique Gomes da Silva, estudante do curso de Gestão e Análise Ambiental, indígena da etnia Pankararu e um dos responsáveis pela organização do evento, explica que a Semana era um desejo antigo dos estudantes, que se tornou possível a partir da realização do primeiro Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas (ENEI) na UFSCar, em 2013. “Há alguns anos sentimos a necessidade de refletirmos com a Universidade os desafios que enfrentamos aqui. O ENEI abriu as portas para organizarmos esse tipo de evento. Quando falamos em reconstruir a história do Brasil, estamos falando em desconstruir os estereótipos que as pessoas têm dos indígenas, mudar a visão preconceituosa que muitos ainda têm. A Semana é importante também para informar os colegas que ingressaram mais recentemente, mostrar as histórias de sucesso, as perspectivas que temos dentro da Universidade hoje e juntar forças para enfrentarmos os desafios que ainda nos são impostos”, avalia o estudante. Hoje, estudam nos cursos de graduação da UFSCar 93 indígenas, de 29 etnias de diferentes regiões do País, e neste ano ingressou o primeiro estudante indígena na pós-graduação da UFSCar.

Desafios na pós-formação
Um dos destaques da Semana foi a mesa “Desafio dos indígenas na pós-formação”, composta pelos estudantes indígenas da Universidade Lennon Ferreira Corezomaé, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação; Mayara Suni e Erinilso de Souza Manchinery, do curso de Ciências Sociais; e Gian Massi, da Licenciatura em Ciências Biológicas do Campus Araras. Sete anos após o ingresso dos primeiros estudantes indígenas na UFSCar através do Programa de Ações Afirmativas da Universidade, a mesa propiciou debates sobre acesso à pós-graduação e realidade dos profissionais indígenas no contexto das lutas pelo reconhecimento de seus povos.
Para a coordenadora da Coordenadoria de Ações Afirmativas e outras Políticas de Equidade (Caape) da ProGrad, Thaís Juliana Palomino, a discussão sobre a pós-formação é um marco na história da presença dos indígenas na Universidade. “Há sete anos, quando recebemos os primeiros indígenas na UFSCar, estávamos discutindo as condições de permanência e formas de viabilizar a vinda desses estudantes. Hoje, temos nove formados, e a maioria não pôde estar aqui porque está trabalhando em diferentes lugares do Brasil. Essa discussão nos mostra o quanto avançamos ao longo desses anos e nos apresenta novos desafios, como discutir as ações afirmativas agora para a pós-graduação. As primeiras formaturas dos nossos estudantes indígenas provaram a capacidade dessas pessoas, confirmaram o que acreditamos desde o começo e servem como um importante estímulo para todos os outros indígenas que estão na Universidade ou que desejem entrar”, afirma Palomino.
Na mesa, o papel da Educação na luta pelos direitos dos povos indígenas foi discutido tendo como pano de fundo as formas pelas quais a invisibilidade desses povos reflete na dificuldade de concretizar a demarcação de terras. O estudante Gian Massi ressaltou a importância de valorizar diferentes trajetórias educacionais, bem como o conhecimento tradicional junto à Ciência, e não em oposição. “O indígena que tem a língua da sua etnia como língua-mãe, e o Português como segunda língua, ainda é visto como um ignorante, já que não fala o Português tão bem. Os conhecimentos tradicionais, tudo aquilo que aprendemos com nossos ancestrais, não têm valor, porque não é considerado Ciência. Nós temos muito a contribuir nas discussões sobre Saúde, Educação, reflorestamento, crise hídrica e mais uma série de temas fundamentais para o País. Precisamos dar as mãos e levantar nossas cabeças, porque o preconceito não faz com que voltemos para o lugar onde acham que deveríamos estar”, defendeu. Para Massi, o diálogo que se estabelece dentro da Universidade com os estudantes indígenas é um passo fundamental para fortalecer as lutas dos povos tradicionais. “Nossa educação é uma coisa que ninguém pode tirar de nós. Quando nos formamos, temos condições de lutar por nossos direitos em condições mais justas, de proteger nossas comunidades. Dificultar o acesso dos indígenas ao Ensino Superior, desqualificar os conhecimentos tradicionais e tratar os indígenas como coitados são formas de negar nosso direito às nossas terras e deslegitimar nossas lutas. Essas coisas estão profundamente relacionadas e dizem respeito a direitos fundamentais de nossos povos”, concluiu o estudante.

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Categorias:Apinajé, Arara, Araweté, Assurini, Kararó, Kokramouro, Krahô, Kuruaya, Mundurucu, Povos Indígenas, Povos indígenas do Parque do Xingu

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