Pesquisador Luiz Hildebrando morre aos 86 anos

Referência mundial no estudo de doenças tropicais, cientista dirigiu unidade do Instituto Pasteur, na França, e liderou programa que reduziu o número de casos de malária em Rondônia (foto: Juca Martins)

Referência mundial no estudo de doenças tropicais, cientista dirigiu unidade do Instituto Pasteur, na França, e liderou programa que reduziu o número de casos de malária em Rondônia (foto: Juca Martins)

Agência FAPESP – Referência mundial no estudo de doenças tropicais, o pesquisador Luiz Hildebrando Pereira da Silva morreu nesta quarta-feira (24/09), aos 86 anos, em São Paulo. Internado no Instituto do Coração (Incor) por causa de uma pneumonia, não reagiu ao tratamento e teve falência múltipla de órgãos.

Diretor aposentado da Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur, na França, estava à frente do Instituto de Patologias Tropicais de Rondônia (Ipepatro) e era vice-diretor de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico, Inovação e Serviços de Referência da Fiocruz Rondônia.

Luiz Hildebrando liderou, no Brasil, um programa que reduziu o percentual de registros de malária em Rondônia de 40% para 7% do total de casos da doença na região amazônica em uma década.

“Luiz era o que podemos qualificar de herói multifacetado, um batalhador: um cientista com contribuições importantes para a parasitologia e para as humanidades”, disse Hernan Chaimovich, membro da Coordenação Adjunta da FAPESP e coordenador dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da Fundação.

Além de mais de 150 artigos científicos (80 deles sobre malária), publicou os livros Crônicas subversivas de um cientista (Vieira& Lent, 2012), Crônicas de nossa época (Paz e Terra, 2001) e O fio da meada (Brasiliense, 1980)

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em 1953 Luiz Hildebrando embrenhou-se no sertão da Paraíba, com o parasitologista Samuel Pessoa, para estudar a epidemiologia de doenças parasitárias.

Voltou a São Paulo como assistente de Pessoa na cadeira de Parasitologia da FMUSP, interessado no ciclo evolutivo do Trypanosoma cruzi. Já inoculado pela inquietação científica e, inadvertidamente, também pelo parasita, utilizou técnica de micromanipulação para provar que não havia sexualidade entre os T. cruzi.

“Nessa época, ele me aplicou um exame e me aprovou. Brincou que, apesar de eu não entender muita coisa de parasitologia, estava bem informado sobre o T.cruzi”, lembrou Walter Colli, do Instituto de Química da USP e membro da Coordenação Adjunta de Ciências da Vida da FAPESP.

Luiz Hildebrando interessou-se pela genética bacteriana, conheceu a pesquisa dos microbiologistas franceses François Jacob e Elie Wollman e começou a fazer planos de passar um período no Instituto Pasteur.

Em 1960, já livre-docente, obteve uma bolsa do então Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) para estágios de pós-doutorado em Bruxelas, na Bélgica, no laboratório de Jean Brachet, e em Paris, na França, no Instituto Pasteur, com François Jacob, no Laboratório de André Lwoff, quando estudou a genética da lisogenia. Na época, François Jacob e Jacques Monod avançavam nos estudos do modelo de regulação da expressão gênica em bactérias, que lhes valeria o Nobel em 1965.

Voltou à USP em 1963 e começou a organizar um laboratório de genética de T.cruzi com Erney Camargo, quando ocorreu o golpe militar de 1964.

Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde os 15 anos, passou três meses preso no navio Raul Soares, em Santos. Acabou demitido da Faculdade de Medicina em outubro de 1964 e voltou à França para integrar-se como assistente no Instituto Pasteur.

Tentou voltar ao Brasil em 1967, aceitando convite para organizar um curso no Departamento de Bioquímica da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, mas, cassado pelo Ato Institucional nº 5, foi demitido e retornou à França, dando início a um longo período de exílio, em que conjugou ciência e política.

Em 1970, descreveu, com Harvey Eisen, o gene CRO (Control of the Repressor and Others), responsável pela regulação da expressão do repressor de um vírus que infecta bactérias, em artigo publicado na Proceedings of National Academy of Science, assinado também por François Jacob.

No ano seguinte, assumiu o cargo de diretor da Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur e, até aposentar-se em 1996, investigou a biologia molecular de parasitas da malária, particularmente do Plasmodium falciparum, com o objetivo de desenvolver vacinas.

Em 1990, em colaboração com Erney Camargo, organizou uma equipe de pesquisa em Rondônia e, em 1997, de volta ao Brasil, foi nomeado, por meio de concurso, professor titular de Parasitologia da USP e assumiu a direção dos programas de pesquisa em Rondônia. “Luiz Hildebrando tinha como primeiro amor a saúde pública e um compromisso com as doenças infecciosas da pobreza”, sublinhou Colli.

Atuação em Porto Velho

Aos 70 anos, Hildebrando trocou Paris por Porto Velho, montou o Centro de Medicina Tropical (Cepem), na Secretaria de Saúde de Rondônia, e criou o Ipepatro.

Pesquisas sobre a dinâmica de transmissão e distribuição espacial da malária resultaram em publicações importantes na Lancet (1999) e na PLoS One (2010), por exemplo. Orientaram, ao mesmo tempo, programas de prevenção como, por exemplo, o de controle da recaída do Plasmodium vivax em Candeias do Jamari, área piloto que registrou queda de AIP (anual parasite índex) de 200 para 82, entre 2011 e 2013.

“Mais uma vez ele conseguiu, em pouco tempo, formar um grupo que olha a malária desde a infecção em macacos até anticorpos em pacientes assintomáticos”, disse Chaimovich.

As iniciativas do Ipepatro impactaram as estatísticas de malária no estado: Rondônia registrou, em 2013, menos de 14 mil casos de malária. Em toda a Amazônia, naquele ano, foram contabilizados 168 mil casos.

Os ensaios clínicos com uma nova quinoleína, ativa em dose única contra as formas hepáticas de P. vivax, também foram promissores, assim como os progressos no desenvolvimento de biotecnologias aplicadas à saúde, implementados pela equipe de engenharia de anticorpos que ele liderava.

“Seu grande legado é o envolvimento permanente com os problemas do país e sua atuação na busca de solução para grandes doenças endêmicas, notadamente malária e Chagas”, disse o parasitologista Erney Camargo, professor emérito do Instituto de Ciências Biomédicas da FMUSP.

Luiz Hildebrando morreu cheio de expectativas em relação aos resultados do trabalho de sua equipe. Em uma de suas últimas entrevistas, afirmou esperar que a campanha contra a malária, que se mantinha apenas sob controle, pudesse “evoluir brevemente, senão para a erradicação, ao menos para uma eliminação”.

O cientista era membro da Academia Brasileira de Ciências e, em junho deste ano, recebeu o Prêmio Fundação Conrado Wessel (FCW) na categoria Ciências. Luiz Hidelbrando era casado e tinha cinco filhos.

Uma entrevista concedida pelo pesquisador em 2012 para a edição especial de 50 anos da FAPESP da revista Pesquisa FAPESP pode ser lida em http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/08/15/virando-o-jogo-da-mal%C3%A1ria/

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Categorias:Cidadania, Notícias

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