DE ARTISTA E DE LOUCO

De médico e de louco todo mundo tem um pouco! Esta expressão está associada à obra de Stevenson, “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, que ganhou notoriedade ainda maior quando uma adaptação do cinema mudo escolheu como título “O Médico e o Monstro”. No livro, o cientista criou uma fórmula para separar a razão do instinto, mas, em nome da dramaticidade, associou … Continuar lendo DE ARTISTA E DE LOUCO

DE ARTISTA E DE LOUCO

De médico e de louco todo mundo tem um pouco! Esta expressão está associada à obra de Stevenson, “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, que ganhou notoriedade ainda maior quando uma adaptação do cinema mudo escolheu como título “O Médico e o Monstro”. No livro, o cientista criou uma fórmula para separar a razão do instinto, mas, em nome da dramaticidade, associou … Continuar lendo DE ARTISTA E DE LOUCO

Um outro Benjamin

FOLHA DE S. PAULO Domingo, 3 de julho de 1994 6-11 Um outro Benjamin A obraFisiognomia Metrópole Moderna Representação da História em Walter Benjamin. de WiIIi Bolle.Ilustrações de Lena Bergstein. Edusp JEANNE MARIE GAGNEBINEspecial para a FolhaAlguns meses atrás, Marcelo Coelho se queixava, com toda ra¬zão, nesta mesma Folha, de uma certa “inflação de estudos sobre Walter Benjamin”; pedia um pou¬co mais de parcimônia na … Continuar lendo Um outro Benjamin

ilustrada Domingo 8 de maio de I994 6-13 OLHO CLÍNICO Rorty e a psicanálise JURANDIR FREIRE COSTA Especial para a Folha Richard Rorty é um dos mais notáveis pensadores da atualidade. A leitura neopragmática que faz da filosofia da linguagem, da filosofia da mente, da teoria do conheci¬mento, da filosofia moral etc., é ousada, nova e admiravelmente in¬ventiva. Por isso, abre um horizonte intelectual que vai muito além das disciplinas investigadas. Exemplo típico é o caso da psi¬canálise. Rorty nunca tomou explicitamente a psicanálise como obje¬to de estudo. Entretanto, alguns dos seus trabalhos (por exemplo "Contingence lrony and Solida¬rity", "Freud and Moral Reflexion", "Non-reductive Physica¬lism" etc.) renovam, de modo iné¬dito e surpreendente, noções psica¬nalíticas como a do sujeito na relação com a linguagem e a ver¬dade. Para Rorty, o que denominamos sujeito não é um dado pré- existente aos elementos linguísticos constitutivos de sua descrição. O “su¬jeito”, o “eu” ou “self” são um efeito de linguagem. Mas linguagem, aqui, não eqüivale à competência abstrata para produzir falas particulares como em Chomsky, ou à estrutura formal de todas as falas possíveis, como em Saussure. Na tradição pragmática de Wittgenstein, Austin, Quine e David¬son, linguagem é simplesmente o conjunto de atos de fala empregados pelos usuários competentes de uma língua. O que distingue o sujeito enquanto rede linguística de outros efeitos de linguagem, sem referência a estados ou processos subjetivos, é o fato de ser pensado como "a parte da rede de crenças e desejos postulada como causa interior do comportamento lingüístico de um organismo singular”. Em outros termos, o eu é a fração linguagem entendida como aquilo que é causa ou que está na origem da linguagem. As consequências desta afirmação são inúmeras. Em primeiro lu¬gar, o sujeito é despojado de todo suporte ”essencial”, idealista ou realista. Nem corpo, nem conceito, em sensível nem inteligível, nem superficial, nem profundo, o sujeito é uma realidade linguística -realidade psíquica, disse Freud. E por ser lingüística depende de contextos históricamente contigentes. Assim sendo, nenhuma identi¬dade subjetiva- emocional, inte¬lectual, sexual, etc- é “natural” ou ”universal”. Nossas crenças sobre o que é normal ou anormal, natural e antinatural nas condutas humanas não designam uma “realidade extra-linguística” anterior ou heterogênea à linguagem; exibem opções e preferências morais da cultura a que pertencemos. Em segundo lugar, o sujeito descrito desta forma não possue centro ou núcleo verdadeiro, nem estrutural nem histórico. Flexionando pragmaticamente a teoria semântica da verdade de Quine e Davidson, Rorty afirma que "verdadeiro é aquilo que é aprovado num sistema de crenças válido para a maioria dos fatos na maioria dos casos". Dito de outra maneira, verdadeira é a descrição do sujeito que satisfaça as exigên¬cias morais do certo e do errado, do bom e do mau, numa dada forma de vida. No neopragmatismo, portanto, o fundamental, em Freud, não é a descoberta de explicações causais deterministas e supostamente cien¬tíficas do que sentimos, pensamos e fazemos: é a construção da ima¬gem do sujeito como um retecer permanente de crenças e desejos que cessa, provisoriamente quan¬do um dado estado de satisfação moral é obtido. Na clínica como na vida podemos desejar alterar estados subjeti¬vos por diversos motivos. Porém. quando alcançamos a alteração de¬sejada, e ela é satisfatória, “nada mais é preciso, nada mais é possível”, como disse Davidson. O critério da satisfação moral é, deste modo, decisivo no julgamento que fazemos sobre a “normalidade” ou “’anormalidade” das organizações psíquicas bem como sobre o sucesso ou insucesso do processo psicanalítico. Qualquer outro critério pretensamente um dado em argumentos racionais in¬dependentes de práticas culturais específicas pressupõe, sem tornar claro, o acordo em torno de crenças éticas compartilhadas na lini¬guagem ordinária. E o adeus pro¬saico, wittgensteiniano, dado por Rorty à metafísica da falta, do desejo ou do verdadeiro sujeito, contida em tantas versões da psicanálise. A meu ver, sua interpretação neopragmática do sujeito restitui a força original do pensamento freudiano. Ou seja, primeiro a escuta solidária das existencias individuais em conflito com os vocabulários morais dominantes; depois as metapsicologias. Estas serão sempre bem vindas, desde que não pretendam aposentar precocemente vidas e desejos em ”pequenas nosologias” e “pe¬quenas teorias". Fazendo filosofia, Rorty fez o que de melhor po¬de ser feito em psicanálise: enten¬der Freud. É um autor de gênio, comprometido com o humanamente digno. Pode haver maior elogio? JURANDIR FREIRE COSTA é psicanalista.

ilustrada Domingo 8 de maio de I994 6-13 OLHO CLÍNICORorty e a psicanáliseJURANDIR FREIRE COSTAEspecial para a FolhaRichard Rorty é um dos mais notáveis pensadores da atualidade. A leitura neopragmática que faz da filosofia da linguagem, da filosofia da mente, da teoria do conhecimento, da filosofia moral etc., é ousada, nova e admiravelmente inventiva. Por isso, abre um horizonte intelectual que vai muito além das … Continuar lendo ilustrada Domingo 8 de maio de I994 6-13 OLHO CLÍNICO Rorty e a psicanálise JURANDIR FREIRE COSTA Especial para a Folha Richard Rorty é um dos mais notáveis pensadores da atualidade. A leitura neopragmática que faz da filosofia da linguagem, da filosofia da mente, da teoria do conheci¬mento, da filosofia moral etc., é ousada, nova e admiravelmente in¬ventiva. Por isso, abre um horizonte intelectual que vai muito além das disciplinas investigadas. Exemplo típico é o caso da psi¬canálise. Rorty nunca tomou explicitamente a psicanálise como obje¬to de estudo. Entretanto, alguns dos seus trabalhos (por exemplo "Contingence lrony and Solida¬rity", "Freud and Moral Reflexion", "Non-reductive Physica¬lism" etc.) renovam, de modo iné¬dito e surpreendente, noções psica¬nalíticas como a do sujeito na relação com a linguagem e a ver¬dade. Para Rorty, o que denominamos sujeito não é um dado pré- existente aos elementos linguísticos constitutivos de sua descrição. O “su¬jeito”, o “eu” ou “self” são um efeito de linguagem. Mas linguagem, aqui, não eqüivale à competência abstrata para produzir falas particulares como em Chomsky, ou à estrutura formal de todas as falas possíveis, como em Saussure. Na tradição pragmática de Wittgenstein, Austin, Quine e David¬son, linguagem é simplesmente o conjunto de atos de fala empregados pelos usuários competentes de uma língua. O que distingue o sujeito enquanto rede linguística de outros efeitos de linguagem, sem referência a estados ou processos subjetivos, é o fato de ser pensado como "a parte da rede de crenças e desejos postulada como causa interior do comportamento lingüístico de um organismo singular”. Em outros termos, o eu é a fração linguagem entendida como aquilo que é causa ou que está na origem da linguagem. As consequências desta afirmação são inúmeras. Em primeiro lu¬gar, o sujeito é despojado de todo suporte ”essencial”, idealista ou realista. Nem corpo, nem conceito, em sensível nem inteligível, nem superficial, nem profundo, o sujeito é uma realidade linguística -realidade psíquica, disse Freud. E por ser lingüística depende de contextos históricamente contigentes. Assim sendo, nenhuma identi¬dade subjetiva- emocional, inte¬lectual, sexual, etc- é “natural” ou ”universal”. Nossas crenças sobre o que é normal ou anormal, natural e antinatural nas condutas humanas não designam uma “realidade extra-linguística” anterior ou heterogênea à linguagem; exibem opções e preferências morais da cultura a que pertencemos. Em segundo lugar, o sujeito descrito desta forma não possue centro ou núcleo verdadeiro, nem estrutural nem histórico. Flexionando pragmaticamente a teoria semântica da verdade de Quine e Davidson, Rorty afirma que "verdadeiro é aquilo que é aprovado num sistema de crenças válido para a maioria dos fatos na maioria dos casos". Dito de outra maneira, verdadeira é a descrição do sujeito que satisfaça as exigên¬cias morais do certo e do errado, do bom e do mau, numa dada forma de vida. No neopragmatismo, portanto, o fundamental, em Freud, não é a descoberta de explicações causais deterministas e supostamente cien¬tíficas do que sentimos, pensamos e fazemos: é a construção da ima¬gem do sujeito como um retecer permanente de crenças e desejos que cessa, provisoriamente quan¬do um dado estado de satisfação moral é obtido. Na clínica como na vida podemos desejar alterar estados subjeti¬vos por diversos motivos. Porém. quando alcançamos a alteração de¬sejada, e ela é satisfatória, “nada mais é preciso, nada mais é possível”, como disse Davidson. O critério da satisfação moral é, deste modo, decisivo no julgamento que fazemos sobre a “normalidade” ou “’anormalidade” das organizações psíquicas bem como sobre o sucesso ou insucesso do processo psicanalítico. Qualquer outro critério pretensamente um dado em argumentos racionais in¬dependentes de práticas culturais específicas pressupõe, sem tornar claro, o acordo em torno de crenças éticas compartilhadas na lini¬guagem ordinária. E o adeus pro¬saico, wittgensteiniano, dado por Rorty à metafísica da falta, do desejo ou do verdadeiro sujeito, contida em tantas versões da psicanálise. A meu ver, sua interpretação neopragmática do sujeito restitui a força original do pensamento freudiano. Ou seja, primeiro a escuta solidária das existencias individuais em conflito com os vocabulários morais dominantes; depois as metapsicologias. Estas serão sempre bem vindas, desde que não pretendam aposentar precocemente vidas e desejos em ”pequenas nosologias” e “pe¬quenas teorias". Fazendo filosofia, Rorty fez o que de melhor po¬de ser feito em psicanálise: enten¬der Freud. É um autor de gênio, comprometido com o humanamente digno. Pode haver maior elogio? JURANDIR FREIRE COSTA é psicanalista.

Ensaio Sobre os Elementos de Filosofia

Especial A-4 segunda-feira; 3 de abril de 1995 jornal de resenhas FOLHA DE S. PAULO/Discurso Editorial/USP ‘~ Os fatos e as quimerasFranklin de Matos Ensaio Sobre os Elementos deFilosofiaJean Le Rond D’Alemberttraduçâo: Beatriz SidouEd. da Unicamp, 184 págs.R$ 12,04 Certamente D’Alembert foi um dos maiores exemplos daquele ideal, próprio da Ilustração, de juntar, numa única figura, o sá¬bio, o filósofo, o homem de le¬tras (só … Continuar lendo Ensaio Sobre os Elementos de Filosofia

Museu do Futebol celebra o Dia da Consciência Negra

Atividades culturais e horário estendido fazem parte da programação No Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, o Museu do Futebol – instituição da Secretaria de Estado da Cultura, localizado no Estádio do Pacaembu – oferece ao público atividades culturais ministradas pelo Núcleo Educativo do Museu que relembram o papel dos negros no futebol e na sociedade brasileira. Do início do século XIX … Continuar lendo Museu do Futebol celebra o Dia da Consciência Negra

Museu do Futebol celebra o Dia da Consciência Negra

Atividades culturais e horário estendido fazem parte da programação No Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, o Museu do Futebol – instituição da Secretaria de Estado da Cultura, localizado no Estádio do Pacaembu – oferece ao público atividades culturais ministradas pelo Núcleo Educativo do Museu que relembram o papel dos negros no futebol e na sociedade brasileira. Do início do século XIX … Continuar lendo Museu do Futebol celebra o Dia da Consciência Negra

Hegel filosofa sobre a essência da caneta

Domingo, 23 de abril de 1995 5- 11 Folha de São PauloHegel filosofa sobre a essência da caneta OLGÂRIA CHAIM FÉRES MATOSEspecial para a Folha Em “Como o Senso Comum Compreende a Filosofia”, um escrito de juventude, Hegel se propõe responder a seu contemporâneo Krug, representante emblemá¬tico do senso comum filosófico”. Propõe-se em termos, pois considera seu contendor – que sucede Kant na Universidade de … Continuar lendo Hegel filosofa sobre a essência da caneta

FILÓSOFO ESCREVE SOBRE O BRASIL

FILÓSOFO ESCREVE SOBRE O BRASILVOLTAIRE Acabamos de ver, no meio das terras da América, multidões de povos civilizados, in¬dustriosos e aguerridos, descobertos e domi¬nados por um pequeno número de espanhóis. Mas os portugueses, conduzidos pelo florenti¬no Américo Vespúcio, tinham descoberto desde a época das viagens de Cristóvão Co¬lombo, no ano de 1500, países não menos vastos, não menos ricos e povoados por na¬ções completamente diferentes. … Continuar lendo FILÓSOFO ESCREVE SOBRE O BRASIL

A guerra sem fim da razão

A guerra sem fim da razãoA batalha de Voltaire pelos direitos humanos permanece inacabada no Brasil e no mundo SÉRGIO PAULO ROUANETEspecial para a Folha Em que sentido podemos dizer que a batalha de Voltaire pelos di¬reitos humanos ainda é indefini¬damente atual”, nas palavras de Valéry?Ela é atual, no Brasil e no mun¬do, porque está inacabada. E atual porque apesar de progressos Im¬portantíssimos. muitas das … Continuar lendo A guerra sem fim da razão

Letras e Luzes de Voltaire

Domingo 20 de novembro de 1994 mais! Folha de São Paulo 6-4 Letras e Luzes de VoltaireAmanhã faz 300 anos que o filósofo, dramaturgo, poeta e romancista François Marie Arouet nasceu em Paris RICARDO MUSSEEspecial para a Folha À luz da situação atual da divisão intelectual do trabalho, a obra de Voltaire, em seu conjunto, soa anacrônica, confusa e até mesmo incompreensível. Admitimos o in¬teresse … Continuar lendo Letras e Luzes de Voltaire

Os tipos revolucionários

”O oprimido é condenado à resistir sob pena de ser pura e simplesmente esmagado”. Daniel Bensaid- Atualidade do Manifesto Comunista. Texto apresentado no Congresso Internacional dos 150 do Manifesto Comunista em Paris, 1998. tradução de João Machado Borges Neto. Cadernos Em Tempo, 310. outubro de 1999. São Paulo. Edições EmTempo. Os tipos revolucionáriosO Revolucionário Permanente. Ele nunca está contente. Sempre há uma revolução para fazer, … Continuar lendo Os tipos revolucionários